Carta de um node solitário
Havia uma hora exata em que a linha ficava livre. Depois das onze, quando ninguém mais ia usar o telefone, o modem podia gritar à vontade. Aquele ruído — o carrier, a negociação, o silêncio súbito quando os dois lados finalmente concordavam — era a coisa mais próxima de uma porta se abrindo que a informática já produziu.
Um lugar com capacidade um
O que mais me impressiona hoje não é a lentidão. É a exclusividade.
Um BBS de um node só aceitava uma pessoa por vez. Enquanto você estava lá, ninguém mais no mundo estava. Não havia timeline, não havia outras pessoas rolando a mesma tela em paralelo, não havia contagem de quem estava online. Havia você, o sysop dormindo, e um computador na sala dele.
Um lugar que só existe enquanto alguém está conectado é uma ideia estranhamente honesta sobre o que é estar em qualquer lugar.
O que se fazia lá
- Ler as mensagens novas desde a última visita.
- Responder duas ou três.
- Baixar um arquivo de 300 KB em quinze minutos.
- Olhar a arte ANSI da tela de entrada por tempo demais.
- Deslogar antes que a conta do telefone virasse assunto de família.
Cinco coisas. Não havia uma sexta. A ausência de uma sexta coisa é exatamente o que fazia as outras cinco valerem a pena.
Coração, informação, acentuação
Uma nota técnica, já que este site insiste em ser um terminal: o português
sempre foi um pequeno problema para telas de texto. Os acentos viviam na parte
alta da tabela — ç, ã, õ, é —, e cada BBS decidia por conta própria se
falava CP437, CP850 ou nada disso. Você digitava coração e o outro lado lia
cora‡Æo.
Aqui isso está resolvido: por dentro é tudo UTF-8, e o CP437 fica onde deve ficar, que é no desenho.
O que sobrou
Sobrou o formato. Uma tela por vez, um assunto por tela, e a certeza de que quando você desligar aquilo tudo simplesmente deixa de existir até a próxima madrugada.
Não é nostalgia. É que a coisa funcionava.